|
|
Da medonha saudade da medusa que medeia entre nós e o passado dessa palavra polvo da recusa de um povo desgraçado.
Da palavra saudade a mais bonita a mais prenha de pranto a mais novelo da língua portuguesa fiz a fita encarnada que ponho no cabelo.
Trança de trigo roxo Catarina morrendo alpendurada do alto de uma foice. Soror Saudade Viva assassinada pelas balas do sol na culatra da noite.
Meu amor. Minha espiga. Meu herói Meu homem. Meu rapaz. Minha mulher de corpo inteiro como ninguém foi de pedra e alma como ninguém quer.
(José Carlos Ary dos Santos)

A minha história é simples
A tua, meu Amor,
É bem mais simples ainda:
"Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta..."
Vês como é simples e linda?
(O resto conto depois;
Mas tão a sós, tão de manso,
Que só escutemos os dois...)
Sebastião da Gama

A lua que te ilumina, Terra da cor dos olhos de quem olha! A paz que se adivinha Na tua solidão Que nenhuma mesquinha Condição Pode compreender e povoar!
O mistério da tua imensidão Onde o tempo caminha Sem chegar!...
TORGA
" Ter uma pátria na cabeça dói muito.
Sangram, sem cura, em nós todas as suas chagas. "
Quis celebrar a cena de Natal,
Louvar do Deus Menino, o Nascimento,
Recriando o Presépio original,
Mas com gente, a vaquinha e o jumento.
Da Virgem, a figura maternal,
Serias tu, com todo o merecimento,
Pois que só tu, Mãezinha especial,
Farias tal papel, com sentimento.
Mas fico a recear que a Virgem Mãe
Possa sentir emulação porém,
Ao ver no seu lugar, mulher tão bela!
Vou colocar-te então, no pinheirinho,
Indicando aos Reis Magos o Caminho,
Pois que ali brilharás, como uma "Estrela"!...
João Manuel
http://robinsoncrosue.spaces.live.com
Obrigado João!
Lindo este teu poema que eu deixo aqui como mensagem de NATAL.
É tempo de reunir a família.
É o dia em que a Saudade dos que partiram bate mais forte...
É também a noite mais longa e o dia mais curto do ano.
NATAL é todos os dias se o Homem quiser!...
Desejo, ao Mundo inteiro, um prato de comida nesta Santa Noite!...
FELIZ 2009
Deixa dizer-te os lindos versos raros Que a minha boca tem pra te dizer! São talhados em mármore de Paros Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolência de veludos caros, São como sedas pálidas a arder... Deixa dizer-te os lindos versos raros Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda... Que a boca da mulher é sempre linda Se dentro guarda um verso que não diz!
Amo-te tanto! E nunca te beijei... E nesse beijo, Amor, que eu te não dei Guardo os versos mais lindos que te fiz!
***** *** * Florbela morreu A tristeza cercou sua vida Mas...ela não soube A força que tinha a sua Poesia...
Irene Alves
30/ 03/ 1930 
Uma tenra vergôntea delicada
Nas tuas mais ridentes Primaveras;
Vivendo uma agradável alvorada
Entre venturas, sonhos e quimeras!
Eras frágil planta confiada
Nesse esteio robusto, que veneras;
Com desvelo criando, dedicada,
Os dois amores, que com amor tiveras.
Por nefasto capricho da má sorte,
O destino derruba o teu suporte
Prostrando-te de dor, emurchecida!
Mas eras Mãe, tiveste que ir em frente,
E suplantando tudo, estoicamente,
És agora uma Alma enobrecida!
( João Manuel )
http://robinsoncrosue.spaces.live.com
Obrigado, meu amigo João!... A tua Amizade traz cor à minha vida!...
Tu é que és uma ALMA NOBRE!...
Bem hajas!
Beijo
Não precisas ser Mar! Já tens grandeza,
Na alma que suporta tanta dor;
Nem queiras ter da pedra essa rudeza,
Que és diamante e tens o seu fulgor.
Para que queres do Sol a chama acesa,
Se emites como Stela, mais calor?!
E de árvore já tens a robusteza,
No maternal abraço protector.
Enfrentas com vigor o vendaval,
Mas hás-de ter a marcha triunfal.
Onde a tua virtude se enaltece!
Após o temporal, virá a bonança!
Olha o novo horizonte, com esperança,
Que os Céus sempre compensam quem merece.
João Manuel
Muito obrigado João!
Com a tua autorização aqui fica este belo Soneto
a dar cor e brilho ao meu espaço.
Ao som dum violino...seria divinal aos ouvidos desta Stela terrena que sou eu!...
http://robinsoncrosue.spaces.live.com
Um espaço de boa POESIA!...
Eu queria ser o Mar de altivo porte Que ri e canta, a vastidão imensa! Eu queria ser a Pedra que não pensa, A pedra do caminho, rude e forte!
Eu queria ser o Sol, a luz intensa, O bem do que é humilde e não tem sorte! Eu queria ser a árvore tosca e densa Que ri do mundo vão e até da morte!
Mas o Mar também chora de tristeza... As árvores também, como quem reza, Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!
E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia, Tem lágrimas de sangue na agonia! E as Pedras... essas... pisa-as toda a gente!...
( Florbela Espanca )
O que é ser mãe, como o dever requer?
Ser mãe com coração, consciência e amor?
Ser mãe, é a glória da mulher,
A mais alta missão que Deus lhe quis impôr.
Ser mãe, é caminhar sobre um sarçal de espinhos,
Mas ter em seu redor todo um jardim florido,
Bendita seja a mãe que sabe entre carinhos,
Repreender, guiar, o filho seu querido.
Ser mãe, oh! Ser mãe… feliz quem sabe sê-lo!
Tem amarguras sim, mas tem muito dulçôr…
Um filho! Oh ter um filho! Oh corações de gelo,
Oh mães que não sentis o maternal amor.
Um filho, a vossa carne, o vosso sentimento;
Um filho acalentado ao colo duma mãe
É cera mole e branda ao seu ensinamento;
Erguei as mãos ao céu, erguê-las-á também.
Vós sois do vosso filho exemplo modelar;
Será um herói, um santo, é águia ainda implume,
Abre-lhe as asas, mãe, ensina-o a voar…
Verás no vôo seu, que grande altura assume!
Tu és espelho mãe, lapida-lhes a alma,
Incute paz, amor, respeito entre os irmãos;
Dá-lhe uma vida sã, dá-lhe uma vida calma,
E não calques essa flor que Deus te pôs nas mãos.
A verdadeira mãe, é o anjo bom da terra,
A deusa da família, o coração do lar,
Santa Isabel, rainha… a apaziguar a guerra,
Repreensões na boca, e bênçãos mil no olhar…
A verdadeira mãe, dos filhos seus é o manto,
Com o mais delicado e puro dos amores.
Amor que a todos cerca, amor profundo e santo,
Maria, a Mãe de Deus…é Mãe dos pecadores!
(Autª - Dona Maria Augusta Nogueira Alves Pereira)
Dedico-to a ti, Mãe admirável. Com um beijo - João
Chorar
com lágrimas
é sinal de dor moderada;
Chorar sem lágrimas
é sinal de maior dor; e chorar com riso
é sinal de dor suma
e excessiva...
Padre António Vieira
( in Os Sermões)
Sou fã incondicional do escritor e do homem.
Torga para mim que só o conheci através do que escreveu,
foi de uma sensibilidade inigualável e a sua poesia tão robusta quanto ele aparentava ser.
Merecia o Nobel, merecia mesmo!...
A um Secreto Leitor
No silêncio da noite é que eu te falo Como através dum ralo De confissão. Auscultadores impessoais e atentos, Os teus ouvidos são Ermos abertos para os meus tormentos.
Sem saber o teu nome e sem te ver - Juiz que ninguém pode corromper Murmuro-te os meus versos, os pecados, Penitente e seguro De que serás um búzio do futuro, Se os poemas me forem perdoados.
Miguel Torga
Coimbra 21 de Fevereiro de 1951
<
O rótulo na garrafa dizia: “suave”... E, no entanto, o vinho era tão amargo!
Mas, quando uma novaluanova enamorada do céu mostrou o sorriso-ternura (donzela recém-deflorada), logo as estrelas surgiram e o céu ficou mais bonito... E concedeu milagres!
E eu vi... Vi à beira dum abismo um menino e sua sombra e enxerguei seu assombro e senti os seus medos...
E a chuva contida (nuvem escondida pelo tempo e além dele), buscando passagem encontrou o caminho e, porque era tanta, logo se fez rio...
E trouxe-me o menino... Trouxe-me o menino e seus segredos e lavou sua alma e levou seus receios...
E, quando uma novaluanova fez o céu mais bonito, o vinho ficou mais suave e eu vi... Ah! Eu vi uma nova estrela nascendo!
***
Grace Spiller

A noite vai caindo de mansinho Depois que o sol desceu no horizonte As árvores recortam-se no monte A lua nasce além, devagarinho
E chega pelo vento o teu carinho Exala-o esta imagem bem defronte A noite não é nada que amedronte Nem quando neste escuro estou sozinho
Recordo o que falámos nesta tela Palavras de amizade, em chama, a vela Que tanto irá arder pra nós ainda
Silente eu te vou tendo aqui comigo Dizem que a noite é triste... Ah eu não ligo E acho-a como tu: suave e linda.
Joaquim Sustelo


A Noite vem poisando devagar Sobre a Terra , que inunda de amargura... E nem sequer a bênção do luar A quis tornar divinamente pura...
Ninguém vem atrás dela a acompanhar A sua dor que é cheia de tortura... E eu oiço a Noite imensa soluçar! E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão escura, assim tão triste?! É que, talvez, ó Noite, em ti existe Uma Saudade igual à que eu contenho!
Saudade que eu sei donde me vem... Talvez de ti, ó Noite!...Ou de ninguém!... Que eu nunca sei quem sou, nem o que eu tenho!!
Florbela Espanca

Livro do meu amor, do teu amor, Livro do nosso amor , do nosso peito... Abre-lhe as folhas devagar, com jeito, Como se fossem pétalas de flor.
Olha que eu outro já não sei compor Mais santamente triste, mais perfeito Não esfolhes os lírios como que é feito Que outros não tenho em meu jardim de dor!
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu! Num sorriso tu dizes e digo eu: Versos só nossos mas que lindos sois!
Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente Dirá, fechando o livro docemente: "Versos só nossos, só de nós os dois!"
Florbela Espanca
A VIDA
A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!
João de Deus
Oh! Como me envaideceu
Com a honra que me deu
Dos meus versos aqui pôr!
As pobres quadras que faço
Alojou no seu “ espaço “
Cedendo-lhe o seu esplendor!
Neste distinto lugar
Assim ficam a brilhar
Ganhando novo fulgor!
Nunca tive a pretensão
Duma tal consagração
Nem de obter tal favor!
Uma Perla descobri
Quando a encontrei a si
No nosso mar de magia;
É Pérola deslumbrante
E eu, pobre “ mareante “,
Encantei-me nesse dia.
Fiquei então a pensar
Se na imensidão do mar
E em fase de maré-cheia;
Eu não terei avistado
Ficando subjugado
Pela voz de uma “ Sereia “…
Obrigado Perla amiga
E aí vai esta cantiga
Fruto da imaginação;
Aceite este trovador
E meu canto de louvor
Com a minha gratidão.
João Manuel
http://robinsoncrosue.spaces.live.com
Olhe, João, muito obrigado!
Aqui ficam tambem, estas Sextilhas que admiro!
Você é um Poeta que, espero seja reconhecido na sua terra, além de já o ser já aqui nos spaces..
Você poeta a brincar e brincando leva simpatia e carinho às pessoas que o visitam e que você visita.
Continue a ser igual a si próprio
Bem haja!...
Beijos % Perla
Obrigado, POETA!
I
Há apenas um instante,
Apareceu no meu cenário
Uma “ Perla “ cintilante
A deixar seu comentário.
No meu “ Manto de Ternura “
- Soneto feito por mim,
Diz que “queria – oh que doçura,
Inspirar um poeta, assim!”
Solenemente prometo
Pois que estou sensibilizado,
Fazer um belo soneto
Nesta “ Perla “ inspirado.
O poema “ Solidão “
“Lindo todavia triste”…
- É pranto de um coração
P’ra alguém que já não existe!...
Mas a “ Perla “ mitigou,
Minha dor, ao afirmar:-
“Decerto no Céu passou
Mais uma estrela a brilhar!”
Quem escreve uma frase assim
Na alma tem poesia
- Olhei para o Céu, e por fim,
Nova Estrela reluzia!
Quem é a “ Perla “, eu indaguei,
Ninguém me soube dizer!
Seu espaço visitei,
Algo fiquei a saber!
É Sol, Lua, Céu e Mar,
Vento e chuva, tudo e nada;
Princípio e fim, a encantar;
Fica a gente deslumbrada!
Diz ser a “ Perlamarinha “
Termo que nos lembra o Mar,
E logo a gente adivinha
Que é “ Pérola “ a rutilar!...
Na citação descortino
Toda a sua sapiência
“ O Amor é o toque divino
Da (humana) existência”…
Tem lá poesia boa
Erudita e muito bela
De José Régio e Pessoa
De outros e da Florbela
Mas de tudo o mais sublime
É da concha aquela imagem,
Onde com requinte exprime
Sua notável linhagem.
O diáfano tecido
Que ampara seu lindo peito,
Daquela concha caído
É de puras perlas feito.
É Vénus de encantamento,
Pois faz lembrar, com primor,
De Vénus, o nascimento,
De Botticelli, o pintor.
E fico a fantasiar
Ser o Príncipe Encantado,
Que ditoso a vai beijar
No seu leito, arrebatado
II
Se tanto se deleitou
Com os versos que lhe fiz;
Pode crer que me deixou
Com isso muito feliz.
As quadras lhe dediquei,
Por bem lhas quis oferecer;
São suas, porque lhas dei,
Ponha-as aonde quiser!
De Vénus tem o esplendor
Que o poeta assim a viu;
Mas seja lá como for
Por modéstia o desmentiu.
Este poeta não mente
Quer esteja triste ou feliz;
Escreve tudo o que sente
E sente tudo o que diz!
Se um poeta é fingidor
Como Pessoa dizia,
Tenho antes por pendor
Ser real na poesia.
E na minha inspiração
Eu vi a “ Perlamarinha “
Como Vénus, por condão,
Saindo duma conchinha
João Manuel
http://robinsoncrosue.spaces.live.com
Obrigado Poeta!

Sabes quem sou? Eu não sei. Outrora, onde o nada foi, Fui o vassalo e o rei. É dupla a dor que me dói. Duas dores eu passei.
Fui tudo que pode haver. Ninguém me quis esmolar; E entre o pensar e o ser Senti a vida passar Como um rio sem correr.
Fernando Pessoa
(12-4-1934)
|
|
|
O Universo não é uma idéia minha. A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha. A noite não anoitece pelos meus olhos, A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos. Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos A noite anoitece concretamente E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso
Alberto Caeiro Ficções do Interlúdio
1-10-1917
|
|
|
|
|
O sono que desce sobre mim, O sono mental que desce fisicamente sobre mim, O sono universal que desce individualmente sobre mim — Esse sono Parecerá aos outros o sono de dormir, O sono da vontade de dormir, O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima: E o sono da soma de todas as desilusões, É o sono da síntese de todas as desesperanças, É o sono de haver mundo comigo lá dentro Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim É contudo como todos os sonos. O cansaço tem ao menos brandura, O abatimento tem ao menos sossego, A rendição é ao menos o fim do esforço, O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela, Viro indiferente a cabeça para a esquerda Por sobre o ombro que a sente, Olho pela janela entreaberta: A rapariga do segundo andar de defronte Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém. De quem?, Pergunta a minha indiferença. E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono! ...
***
Álvaro de Campos |
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.
O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
***
Alberto Caeiro |
Recomeça… Se puderes, Sem angústia e sem pressa. E os passos que deres, Nesse caminho duro Do futuro, Dá-os em liberdade. Enquanto não alcances Não descanses. De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado, Vai colhendo Ilusões sucessivas no pomar. Sempre a sonhar E vendo, Acordado, O logro da aventura. És homem ou mulher, não te esqueças! Só é tua a loucura Onde, com lucidez, te reconheças.
Miguel Torga – “Diário”
|

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho os com olhos lassos, (Há nos meus olhos ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. - Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde, Porque me repetis: "Vem por aqui"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos? Corre nas vossas veias sangue velho dos avós. E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátrias, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, - Sei que não vou por aí!
José Régio

|
AH, quanta vez, na hora suave Em que me esqueço, Vejo passar um vôo de ave E me entristeço!
Por que é ligeiro, leve, certo No ar de amavio? Por que vai sob o céu aberto Sem um desvio?
Por que ter asas simboliza A liberdade Que a vida nega e a alma precisa? Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre Como uma cheia Meu coração, e entorna sobre Minh'alma alheia Um desejo, não de ser ave, Mas de poder Ter não sei quê do vôo suave Dentro em meu ser.
Ricardo Reis
(Fernando Pessoa / heterónimos)
|
|
|
|
|